Jovem resgatado do trabalho forçado reencontra profissionais de assistência de projeto da OIT

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Trabalhador autônomo e estudante de Engenharia Civil, Rafael Ferreira da Silva, de 25 anos, refez sua vida após ser resgatado do trabalho forçado em uma fazenda em Jauru, interior de Mato Grosso, em 2008.
O jovem participou do Ação Integrada, projeto que oferece formações profissionais a pessoas que estão em situação de risco ou que foram resgatadas de condições análogas à escravidão.
Passados oito anos desde que escapou do trabalho forçado, Rafael reencontrou a equipe que o acolheu na época.
O momento — marcado por risadas e agradecimentos de ambas as partes — aconteceu no dia 3 de novembro, na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Mato Grosso (SRTE-MT), em Cuiabá.
Destaque Rafael e os profissionais do Ação Integrada compartilharam lembranças durante o reencontro. Forest Comunicação / Marcio Camilo Rafael e os profissionais do Ação Integrada compartilharam lembranças durante o reencontro.

Os profissionais do Ação Integrada ficaram impressionados com o crescimento pessoal de Rafael, que tinha 17 anos quando foi resgatado de uma situação de exploração extrema. “A minha maior satisfação é reencontrar esses trabalhadores e ver que eles estão bem, empoderados e convencidos de que são capazes de vencer na vida.Esta sensação não tem preço”, destacou o coordenador executivo do iniciativa no estado, Pablo de Oliveira.

Vocês me tiraram do meio do mato
e me apresentaram o mundo,
me deram uma perspectiva de vida
e eu passei a acreditar que
era possível, sim, ser feliz.

Rafael contou à equipe do projeto como teve uma vida agitada desde o resgate realizado pela equipe de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Ele trabalhou como operador de máquinas agrícolas, em serviços gerais, num frigorífico, foi pintor e corretor de imóveis, entrou na faculdade, se casou e reinventou sua história.

Atualmente, Rafael está sem emprego fixo, como milhares de brasileiros atingidos pela crise econômica. O rapaz, no entanto, não fica parado. Ao lado da esposa, vende salgados no bairro do Cristo Rei, em Várzea Grande (MT), onde mora.

“A gente levanta por volta das 4h da manhã. Ela faz os salgados, eu os coloco num carrinho de feira e saio vendendo. Por volta das 11h, dou uma parada para o almoço e retorno ao trabalho por volta das 15h, quando o sol começa a baixar, e só vou parar lá pelas 18h”, explica Rafael.

É emocionante, pois este trabalhador
foi resgatado de uma vida sem esperança nenhuma
e trazido para a formação em Cuiabá.
Agora, encontro um moço diferente.

A história de vida do jovem sensibilizou Ilson César Pereira Branco, mediador de conflitos trabalhistas na SRTE-MT e parceiro do Ação Integrada. O funcionário, que integrava a equipe de execução do projeto na época da participação de Rafael, falou sobre o que sentiu ao revê-lo.

“É emocionante, pois este trabalhador foi resgatado de uma vida sem esperança nenhuma e trazido para a formação em Cuiabá. Agora, encontro um moço diferente, com uma postura de cidadão, responsável, fazendo uma faculdade e numa atividade que gera renda”, comenta.

Rafael afirma ser eternamente grato pelo Ação Integrada: “Vocês me tiraram do meio do mato e me apresentaram o mundo, me deram uma perspectiva de vida e eu passei a acreditar que era possível, sim, ser feliz”.

Levar conhecimento para os trabalhadores vulneráveis e apontar novas possibilidades de vida é um dos objetivos do Ação Integrada, segundo Ilson. Ele lembra que “o mundo é feito de histórias”, e a divulgação de casos de violação de direitos e superação pelas vítimas através de programas de capacitação profissional é relevante para consolidar uma agenda positiva sobre o tema.

De acordo com Rafael, a qualificação o ajudou a “tirar a venda dos olhos” e o levou a entender o que é a escravidão contemporânea, um conceito ainda pouco debatido pela sociedade.

Também participou do reencontro a secretária adjunta de Cidadania do governo do Mato Grosso, que na época era coordenadora executiva do Ação Integrada, Alda Teresa Attilio. Ela disse que sua vida também foi transformada depois de passar pelo programa e conhecer tantos trabalhadores em situação degradante.

“Na verdade, Rafael, a gente aprende mais com vocês do que o contrário. Eu melhorei como pessoa, mãe e cidadã. Percebi que minhas dificuldades não são nada diante do que vocês já passaram na vida”, ressaltou Alda.

Ação Integrada

Em 2016 o projeto está promovendo duas novas formações profissionais. A primeira é um curso de mecânica agrícola com 15 jovens aprendizes que estão sendo qualificados na fazenda Bom Futuro, em Campo Verde (MT). A propriedade é do Grupo Bom Futuro, parceiro empresarial do Ação Integrada do setor agropecuário.

Já a segunda formação deste ano está capacitando 25 egressos do trabalho forçado como operadores de máquinas, num curso que recebe o apoio da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso (UFTM).

Desde sua criação em 2009, a iniciativa já beneficiou 700 participantes, além de entrar em contato com pouco mais de 2 mil pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão. Na abordagem, os trabalhadores são entrevistados e as informações são utilizadas para estruturar as iniciativas de apoio multidisciplinar e integral nas áreas educacional, psicossocial e de formação profissional.

Informações também são utilizadas para embasar políticas públicas de assistência social, educação, trabalho, emprego e renda.

O Ação Integrada é desenvolvido pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-MT), pela SRTE-MT e pela UFMT, com apoio financeiro e de assistência técnica da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Com informações Agência ONU


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