Refugiados acessam ensino superior na Malásia após parceria de Agência da ONU com universidades

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Nawa trabalha como voluntária dando aulas em um centro de ensino para refugiados e também está se preparando para começar a universidade.
Durante a maior parte de sua vida, Nawa sempre viu outras crianças indo para a escola. Porém, sendo menina e refugiada, ouvia que aquele não era lugar para ela.
O cenário continuou o mesmo quando chegou à Malásia, onde refugiados não têm acesso à educação formal dentro do sistema nacional de ensino.
Entretanto, com o apoio da Fugee School, um centro de ensino em Kuala Lumpur, a refugiada somali começou a estudar na idade em que outros estudantes estavam concluindo o ensino médio.
Destaque Refugiados acessam ensino superior na Malásia após parceria de Agência da ONU com universidades ACNUR/Ted Adnan

“Eu passei 16 anos sem ter acesso à educação, mas querendo muito aprender. Quando ganhei minha primeira mochila para ir à escola, eu a usava apenas para me olhar no espelho e me imaginar como estudante”, disse. “Eu comecei na quinta série, meus colegas de classe tinham dez anos de idade ou menos. Eles zombavam de mim, mas eu não ligava para isso”.

Como ela falava apenas somali, foi reprovada em matérias no primeiro mês. Mas estava muito determinada a aprender, evoluiu rapidamente, avançou algumas séries e deu prosseguimento ao seu sonho. “É inacreditável o quanto eu aprendi em quatro anos”, disse Nawa, agora com 20 anos. “O que me impulsiona é saber que eu sou a única pessoa da família que teve acesso à educação e que chegou tão longe. Eu também quero me tornar um exemplo para outras mulheres que têm medo de conquistar o que desejam”.

Grande defensora dos direitos das mulheres, ela se alegra ao ver atualmente mais meninas do que meninos na Fugee School — o oposto do que acontecia em 2013, quando iniciou seus estudos. Embora saiba que algumas meninas tenham deixado os estudos devido ao casamento precoce, essa tendência parece estar mudando.
“Antigamente, na Somália, as meninas costumavam se casar entre 12 e 14 anos. Agora existem muitas meninas com 20 anos ou mais que ainda não se casaram. Isso me deixa muito feliz”.

Nós, refugiados, precisamos estudar com muito mais determinação do que os locais.

No ano passado, Nawa concluiu o ensino médio na Fugee School antes de iniciar o curso preparatório para a Universidade de Nottingham na Malásia. Ela está entre os 42 estudantes refugiados atualmente matriculados em três universidades do país como resultado de um intenso esforço da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) junto a instituições de ensino superior.

Nawa reconhece que existe uma lacuna de conhecimentos entre ela e suas novas colegas de classe malaias. “Refugiados passaram por guerras, foram forçados a se deslocar tantas vezes, e isso torna a nossa educação instável. Nós precisamos estudar com muito mais determinação do que os locais”, disse.

Ela atua agora como voluntária na Fugee School dando aulas no jardim de infância para crianças refugiadas, três vezes por semana, para ajudá-las a preencher essa lacuna de conhecimento. “No início, meus alunos não falavam inglês. Mas eles aprenderam tão rápido que agora falam melhor do que eu”.

Entretanto, Nawa tem plena consciência dos desafios enfrentados pela Fugee School e outros 120 centros de treinamento da Malásia que são em grande parte geridos pelos próprios refugiados, com o apoio de voluntários. “Como refugiados, a única forma que temos acesso à educação é por meio dos centros de ensino. Eles estão trabalhando duro para conseguir doações, livros, professores qualificados. Mas pode ser que isso ainda não seja suficiente para que os estudantes conquistem o que almejam”, disse.

Todo ser humano tem direito à educação. A educação oferece chaves para abrir qualquer porta.

Obstáculos estruturais à parte, também é necessário vencer alguns preconceitos e barreiras sociais. Para Nawa, tem sido um desafio pessoal conquistar o apoio de sua mãe, que tem uma visão mais tradicional e conservadora.

“Quando eu fui aceita em Nottingham, minha mãe disse, ‘de jeito nenhum, eu não acredito nisso’. Ficamos discutindo por mais de um mês sobre a possibilidade de eu ficar no campus, mas agora ela finalmente está aceitando a ideia. Ela tem visto que me tornei um exemplo para estudantes e suas famílias, em nossa comunidade, assegurando que refugiados possam frequentar a universidade. O fato de ser um exemplo facilitou o apoio de minha mãe.”

Nawa planeja estudar Relações Internacionais e depois trabalhar em uma organização para os direitos humanos, ou mesmo iniciar a sua própria. Ela diz que a educação, ainda que tardia, possibilitou que ela se tornasse a pessoa que é hoje.

“Todo ser humano tem direito à educação. A educação oferece chaves para abrir qualquer porta. Antes de chegar à Malásia e iniciar meus estudos na Fugees School, eu não sabia o que queria para o meu futuro. Mas agora eu sei como é a vida, quais são as oportunidades que existem, e que eu estou mais preparada para contribuir para o mundo.”

Com informações Agência ONU


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