Sobreviventes de naufrágio no Egito relatam disputa por coletes salva-vidas dentro d’água

  • Por:  
  • Publicado em Mundo
Publicidade
Membros do exército egípcio fazem guarda em posto naval em Rashid, no Egito, ao lado dos destroços de um barco de pesca que virou na costa, matando pelo menos 202 pessoas.
Quando uma embarcação pesqueira lotada de migrantes e refugiados afundou na costa do Egito no mês passado (21), a somali Abshiro* contou que teve que lutar contra outros passageiros que tentavam tirar seu colete salva-vidas à força.
“Lutei pela minha vida na água não apenas por não saber nadar, mas porque as pessoas estavam tentando tirar de mim o meu colete salva-vidas”, disse Abshiro à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), em entrevista após a tragédia.
Contrabandistas amontoaram mais de 500 migrantes em uma embarcação que partiu do Egito com destino à Itália. O barco virou e afundou na costa de Rashid, no Egito. Abshiro, de 21 anos, estava entre os 164 sobreviventes de diferentes nacionalidades: egípcios, sudaneses, eritreus, etíopes e um sírio.
Destaque Sobreviventes de naufrágio no Egito relatam disputa por coletes salva-vidas dentro d’água ACNUR/ Scott Nelson

Até o momento, 202 corpos foram encontrados, sendo que 33 foram resgatados dentro da própria embarcação naufragada, incluindo duas crianças e uma mulher que ficaram presas.

O Egito tem uma longa história de acolhimento de refugiados. Ao mesmo tempo, é uma rota tradicional de migração irregular para a Europa por via marítima. Vários dos sobreviventes da tragédia da semana passada descreveram sentimento de medo quando a embarcação superlotada começou a balançar. Uma briga levou ao naufrágio, lançando centenas de homens, mulheres e crianças às águas, muitas delas sem coletes salva-vidas e incapazes de nadar.

“Não consigo esquecer os corpos. Eu estava agarrada a um deles, tentando flutuar”, disse Achan*, advogada de 35 anos de Darfur, no Sudão, que estava na sua quarta tentativa de chegar à Europa quando a embarcação naufragou. “Muitos não tinham coletes salva-vidas, então muitas disputas aconteceram dentro d’água. As pessoas puxavam umas às outras, tentando boiar. Isso fez com que a situação ficasse ainda pior”, lembrou.

Segundo os sobreviventes, enquanto a embarcação inclinava, tripulação e passageiros tentaram a chamar a polícia e a marinha, enviando sinais de pedido de socorro.

“Eu não conseguia nadar, mesmo usando um colete salva-vidas”, relatou Abrihet*, uma eritreia de 33 anos que contou com o apoio de outros para sair da água.

Desde 2014, houve aumento constante do número de interceptações de refugiados e migrantes que tentam deixar o Egito de forma irregular, relatou o ACNUR. Alguns sobreviventes disseram que antes da tragédia já haviam tentado chegar à Europa, sem sucesso.

Embora o número total de travessias no Mar Mediterrâneo seja, até o momento, 42% menor em relação ao mesmo período do ano passado, em 2016 o número de pessoas mortas ou desaparecidas é elevado: foram 3.498 óbitos registrados até o momento.

Na sequência do naufrágio, o governo egípcio prendeu pelo menos quatro membros da tripulação. Eles permanecem sob custódia e podem ser acusados de tráfico de pessoas e homicídio por negligência.

Em conversas sobre como funciona este mercado mortal, sobreviventes contaram que chegaram a pagar entre 1 mil e 1,7 mil dólares para a travessia. Depois de definido um ponto de encontro, eles foram levados a um armazém e, durante a noite, foram transportados para a embarcação por meio de barcos de pesca menores.

A maioria dos migrantes a bordo era egípcia. Sobreviventes disseram que cerca de 100 africanos estavam em dois compartimentos no andar inferior, e que as mulheres e crianças estavam em outros três compartimentos nos andares médio e superior.

Imediatamente após a tragédia, ACNUR e parceiros analisaram as condições e necessidades dos 43 sobreviventes para prestar assistência humanitária. Também foi dada atenção médica e apoio psicossocial aos sobreviventes que se esforçam para superar a lembrança dos horrores que testemunharam.

O governo egípcio deteve este ano cerca de 5 mil estrangeiros por saírem da costa norte do país de forma irregular, e tem seguido uma política de liberar todos aqueles que forem registrados como refugiados e solicitantes de refúgio pelo ACNUR no Egito.

O ACNUR confirmou às autoridades o registro dos detidos e está trabalhando em prol da sua imediata libertação, fornecendo apoio e assistência durante a detenção.
A Agência da ONU para Refugiados informou que continuará a monitorar de perto a situação dos detidos, sobretudo em razão da investigação governamental sobre o incidente do mês passado, defendendo os direitos de proteção a todas as pessoas de interesse do ACNUR.

Com informações Agência ONU


Adicionar comentário

Importante: O conteúdo postado neste espaço é de responsabilidade do autor.


Código de segurança
Atualizar

Entre para postar comentários